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histórias de uma gata borralheira

por Moira, em 05.12.11

Naquele tempo as fadas transformavam as abóboras em lindas carruagens e a gata borralheira casava com um príncipe charmoso que percorrera o seu reino com um sapatinho de cristal na mão, mas os tempos mudaram a tradição já não é o que era e todos sabemos que as fadas não existem.

Na minha história a gata borralheira vive nos subúrbios da capital, passa a maior parte do tempo a sonhar com o tal príncipe mas continua a cozinhar para ganhar a vida, que as coisas não caem do céu e ela não tem com quem dividir as despesas.

Passa dias na cozinha a fazer pastéis e empadas que coze logo pela manhã, depois sai de casa para os distribuir pelos cafés das redondezas onde são devorados por gente desconhecida, entre golos de café e conversas perdidas sobre o tempo, a crise ou coscuvilhices de vizinhas.

Há muito que perdeu a esperança de um dia ser alguém. A sua vida é rotineira, às vezes sem graça, não tem muitos amigos e o príncipe encantado nunca chegou a aparecer, nem tão pouco alguém que a fizesse feliz.

Vai sendo feliz à sua maneira, quando, para fugir à rotina, experimenta novas receitas e diz quem a conhece que cozinha com amor.

O amor...

Aquele sentimento que tanto a faz sonhar mas que nunca chegou a sentir.

Às vezes escolhe receitas a pensar no seu príncipe, imagina os seus gostos...

Se ele ao menos aparecesse...

Seria decerto pela boca que o iria cativar, porque na sua beleza já ninguém reparava, felizmente herdara o dom da madrinha, para quem a cozinha não tinha segredos.

As suas refeições eram simples e na maioria das vezes utilizava apenas os produtos que cultivava nas traseiras da casa que tinha herdado da madrinha, mas hoje era o seu aniversário e por isso tinha comprado um pedaço de queijo da ilha, daquele cujo sabor forte perdurava na língua com um leve picante que tanto lhe agradava. Imaginou o contraste que faria com a abóbora que tinha aberto dias antes e atreveu-se a fazer um soufflé de textura suave como os sonhos e de sabor forte como imaginava que fosse o amor.

Levou a primeira garfada à boca, bebeu um pouco de vinho e continuou a sonhar.

Soufflé de Queijo da Ilha com Abóbora Assada

Ingredientes:

  • 1/2 chávena de abóbora assada
  • 1 dente de alho confitado
  • 3 ovos pequenos
  • 1/2 chávena de molho branco (bechamel)
  • sal aromatizado com picante
  • 1/2 chávena de queijo da ilha ralado

Preparação:

Limpar um bom pedaço de abóbora, retirando cascas e sementes e cortar às fatias. Colocar num prato de ir ao forno, temperar com sal aromatizado com picante e um fio de azeite e levar a assar por uns 30 minutos ou até estar macio. Deixar arrefecer, escorrer bem a água que se formou e esmagar a abóbora juntamente com o alho confitado com um garfo. (se não tiver alho confitado pode assar um dente de alho juntamente com a abóbora)

Misturar a abóbora com o molho branco e as gemas de ovo e acrescentar o queijo ralado. Se necessário rectifique os temperos.

Bater as claras em castelo e envolver suavemente com a mistura de abóbora.

Levar ao forno quente a 220º, em formas bem untadas, passados os primeiros 5 ou 10 minutos baixe a temperatura para os 180º, e deixe cozer mais 10 a 15 minutos. Servir simples como entrada, ou se preferir como acompanhamento de carnes.

Notas: A abóbora pode ser estufada em vez de assada,  molho branco ou bechamel pode ser caseiro ou de compra e o queijo deve ser forte para contrastar com o doce da abóbora. 

O resultado é um soufflé de sabor forte e picante, com o qual participo no passatempo "Chocolate e Picante: Um desafio de receitas com histórias dentro" promovido pelo Gourmets Amadores em conjunto  Casa das Letras do grupo Leya.

chocolate_picante

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publicado às 18:30


41 comentários

De Ondina Maria a 06.12.2011 às 11:10

Moira Coragem. Soufflé lindo, de cores outonais e quentes onde o picante ajuda a manter a temperatura do organismo em níveis agradáveis. Há que enfrentar o tempo menos bom com comida reconfortante e caseira enquanto se ouvem histórias à volta da lareira e se beberica um fumegante vinho com especiarias. As bochechas ficam coradas e a alma sorri de contentamento :)

De Moira a 06.12.2011 às 14:46

Ondina,
Esta é sem dúvida uma comida para dias frios :)

De Suzana a 06.12.2011 às 10:38

Moira querida,

Dos sonhos que fazem a vida cozinha-se um dia-a-dia especial. Metafórica ou literalmente, a tua estória é a de cada um de nós e a procura do amor uma aventura constante, arriscada e (às vezes) dolorosa mas tão compensadora! Assim mais ou menos como a coragem que é preciso pôr na mesa para um soufflé. Dos bons. ;)

Muito, muito obrigada pela deliciosa participação no desafio.

Um beijo*

De Moira a 06.12.2011 às 14:45

Suzana,
Foi com um enorme prazer que participei neste teu desafio.
A história foi sendo escrita e ajustada ao longo de 4 dias, juntando pequenos retalhos da vida de mais de uma dezena de pessoas que eu conheci, acho que é por isso que ela parece tão real, ela é a realidade a vida de muita gente conhecida ou desconhecida :)
Já para chegar à receita foi mais difícil, pois tive que pensar numa que se ajustasse à história, mas o provador lá de casa aprovou o sabor forte deste soufflé.
Beijocas

De Marta a 05.12.2011 às 23:28

Olá Moira, gostei muito da estória, e do soufflé também.
Parabéns
Beijinhos

De Moira a 06.12.2011 às 14:37

Obrigada Marta!

De Patrícia (foodwithameaning) a 05.12.2011 às 21:51

As minhas felicitações por esta história fascinante!Sabe, ainda há muita gente que se enquadra na descrição que faz da sua gata borralheira. Pessoas com 'p' grande, que trabalham arduamente, que têm mérito pelo que fazem mas que cujas vidas ainda não estão completamente preenchidas. Que desculpa terá o destino para esta realidade?
Gostei muito da receita, mas a história apreciei muito mais.
Um abraço
Patrícia

De Moira a 06.12.2011 às 14:36

Patrícia,
É verdade, a maioria das pessoas passam a vida a sonhar, e trabalham árduamente sem ter o seu trabalho reconhecido, no entanto não desistem e isso tem um enorme mérito.
A história é completamente inventada, mas acaba por ser um montinho de retalhos da vida de muitas pessoas que eu conheci.
Um abraço e votos de sucesso para o teu novo blog

De Ameixinha a 05.12.2011 às 20:49

Estou a adorar a onda de estórinhas :) A minha postagem também está preparada mas nada que se compare a isto. Que maravilha e que estória linda... o amor ainda lhe vai bater à porta ha ha

De Moira a 05.12.2011 às 21:31

Oh miúda, isso é que é um elogio, fiquei de ego cheio :)
Obrigada!

De Ginja a 05.12.2011 às 19:36

Um souffle que sabe a amor, perfeito!
Um beijinho.

De Moira a 05.12.2011 às 20:28

Obrigada Ginja!

De Pedro a 05.12.2011 às 19:14

Perfeito!

De Moira a 05.12.2011 às 19:20

Obrigada!

De Fátima Soares a 05.12.2011 às 18:58

Ups! esqueci-me se é dia de aniversário dela muitos parabéns e muitos anos de vida para deliciar com estas receitas maravilhosas!!! Bjs

De Moira a 05.12.2011 às 19:19

Fizeste-me rir, e muito miúda!
Esta história é pura ficção, mas parece que criei uma personagem bem real já que recebe os parabéns dos meus leitores ;)
Obrigada!

De Fátima Soares a 05.12.2011 às 18:56

Adorei a história! É a realidade de muitas fadas da cozinha a quem não deram mais que o "dom" de fazer do pior prato parecer um verdadeiro acepipe e o maior manjar e isso é uma verdadeira riqueza que fará qualquer ou "muitos" principes cairem de amores e se não é porque andam cegos ou a comer comida de "plástico" :) Não sabem o que perdem!!! É sempre assim... Preferem as que não sabem estelar um ovo (estou a brincar9 que elas não me matem!!! E a receita... Até fiquei a salivar...Um beijinho Moira!

De Moira a 05.12.2011 às 19:20

Os príncipes deste país já só comem comida de plástico ;)
Bj

De CNS a 05.12.2011 às 18:52

Um soufflé de sonho :)

De Moira a 05.12.2011 às 19:19

Obrigada!

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