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Se o meu pai soubesse que eu abri uma garrafa de vinho da madeira de propósito para confeccionar um prato de coelho, diria que eu tinha enlouquecido.
Eu sei que ele não passa por aqui, mas se isso acontecesse também saberia que foi ele que me ensinou que se um vinho não é bom para beber, não é bom para cozinhar.
E agora que justifiquei a abertura de tão precioso néctar, passemos à receita, até porque a refeição estava excelente.
Coelho com Mostarda e Compota de Framboesa
Ingredientes:
Preparação:
Tempere o coelho com o sal, a pimenta, o alho e o vinho da madeira e deixe marinar por um bom par de horas.
Escorra bem o coelho e passe-o por farinha, aqueça o azeite e a margarina e aloure o coelho dos dois lados.
Junte então a marinada, descartando o alho, adicione a mostarda e deixe cozinhar em lume brando, se necessário junte um pouco de água, para que o molho nunca seque demasiado. No final retire o coelho, e junte a compota de framboesa, mexa com uma colher, deixe fervilhar um pouco, junte de novo o coelho, polvilhe com salsa picada e apaque o lume.
Sirva com esparregado de nabiças e arroz de manteiga.
Prato inspirado numa receita de coelho com mostarda do Livro de Receitas de Carne da Vaqueiro
Nunca fui de programar refeições com antecedência, talvez porque não gosto de rotinas, as refeições surgem quase sempre ao acaso, sem programação prévia, sem lista de compras e na maioria das vezes sem receita. Passo pelo supermercado do bairro antes de regressar a casa, olho para as coisas e surge sempre uma ideia para o jantar.
Complicado? Acredito que o seja para a maioria das pessoas, mas para mim é natural.
Foi o que aconteceu hoje, ao cruzar-me com um ramo de tomilho fresco, imediatamente pensei que teria de o levar comigo e fazer qualquer coisa com ele.
Coelho com Tomilho e Mostarda à Antiga
Ingredientes:
Preparação:
Temperar o coelho com o sal, o louro, o alho picado e as folhinhas de tomilho e deixar tomar sabor durante pelo menos meia hora.
Aquecer o azeite numa frigideira e alourar o coelho de ambos os lados em lume forte, quando tiver um aspecto dourado, baixar o lume e adicionar o vinho branco, deixando cozinhar até quase evaporar todo o molho, juntar então o copo de água, tapar a frigideira e deixar cozinhar em lume brando até a carne estar cozida, se necessário junte mais água, mas sempre em pouca quantidade. Quando a carne estiver cozinhada adicionar a mostarda ao molho, envolver na carne e deixar fervilhar mais uns 5 minutos só para tomar sabor. O molho no final deve ter um aspecto cremoso.
Servir com arroz de espinafres ou com legumes salteados.
Notas: O restante tomilho pode ser guardado no congelador. Quando compro coelho divido-o de forma a usar as diferentes partes para outras receitas. Habitualmente as pernas são para assar no forno e os lombos peço para cortar mais pequenos para fritar, assim sai mais barato do que comprar só mãos ou só pernas.
Toda a nossa vida é um somatório de memórias, mas aquelas que permanecem inabaláveis no nosso coração toda uma vida, são quase sempre as memórias de infância.
Parte da minha infância foi passada com a minha avó paterna que era uma óptima contadora de histórias, passei anos a ouvi-las até quase sabê-las de cor mas nunca as escrevi e a minha memória traiu-me, tendo assim perdido grande parte desse espólio maravilhoso que eram as histórias da minha avó.
A minha avó foi costureira e bordadeira durante muitos anos, aprendeu a bordar e a costurar muito nova numa Singer a pedal que ainda hoje sobrevive e trabalha em casa da minha mãe.
Nos seus tempos livres a minha avó dava explicações e preparava miúdos para o exame da 4ª classe (que era obrigatório e levado muito à séria), havia uma sala com várias mesas e cadeiras, um mapa de Portugal na parede, um globo, um crucifixo e um quadro com uma fotografia do Marechal Carmona, tal como nas escolas públicas havia um intervalo para lanchar que aquilo de fazer contas e redacções dava uma fome tremenda.
Ainda não havia "Bolicaos", nem "Kinderbueno", não se comia pão com "Nutela", e lá por casa nem sequer se comprava o famoso "Tulicreme", os lanches consistiam na maioria das vezes por pão com marmelada, caseira, bem entendido que acompanhava um copo de leite gordo que nos deixava com bigodes e se comprava habitualmente numa vacaria que havia ao cimo de um monte próximo, quanto ao pão era comprado na padaria do bairro e cozido em fornos a lenha.
Os meus lanches variavam consoante a vontade da avó, o que havia disponível e o meu apetite, que na altura era muito pouco, eu era uma miúda de aparência escanzelada e magricela que gostava muito pouco de comida, fosse ela qual fosse.
Nessa altura, apesar de não ser amiga de comida, havia duas coisas que eu adorava, gemadas e pão com manteiga e açúcar, e a minha avó dava-me pois sabia que aqueles seriam provavelmente os alimentos que me fariam mais proveito durante o dia.
O tempo passou, os meus pais emigraram para África, não só para fugir ao antigo regime, que por lá não se fazia sentir da mesma maneira, como para tentarem uma vida melhor.
Eu tinha 11 anos quando regressamos a Portugal nos finais de 1974, com o triste rótulo de retornados e tendo que recomeçar tudo do zero.
Nessa altura a minha avó vivia nos arredores de Lisboa e a sua casa acabou por ser o nosso porto de abrigo durante algum tempo até os meus pais arranjarem emprego.
Ela criava coelhos, patos e galinhas, cultivava couves, alfaces, favas, ervilhas e outras coisas mais, num pequeno quintal que havia por trás da casa, garantindo assim uma alimentação minimamente saudável e bastante menos dispendiosa.
De vez em quando, o meu avô que andava sempre por fora trazia caça que os amigos lhe davam, e era uma festa. Os fins de semana eram pacatos e quase sempre passados em família.
A minha avó paterna não era uma cozinheira exímia, mas cozinhava de tudo um pouco de forma trivial, lembro-me especialmente de duas receitas que ela fazia quando os primos de Benfica vinham almoçar, canja de coelho, uma coisa à qual nunca me consegui habituar e coelho estufado com vinho que era servido sobre fatias de pão frito.
Como noutro dia ofereceram duas peças de caça ao António, peguei num coelho bravo e resolvi com ele capturar as minhas memórias e com a receita da minha avó paterna participar no passatempo "Conta-me a tua receita", organizado pelo Cinco Quartos de Laranja com o patrocinio da RTP a propósito do lançamento do Livro Conta-me como foi - As receitas da Família Lopes.
Foi assim que tirei do armário os naperons de renda tão frequentes na época e a velhinha travessa de esmalte da minha avó, gasta pelo tempo e pelas memórias de comidas passadas para apresentar a comida de hoje.
Coelho Bravo com Vinho
Ingredientes:
Preparação:
De véspera temperar o coelho com os dentes de alho, o louro, o colorau e um copo de vinho branco.
Num tacho colocar o azeite e a banha, quando a banha derreter colocar os pedaços de coelho reservando a marinada, temperar com sal e pimenta, pôr o raminho de salsa inteiro no tacho juntamente com o restante vinho branco, tapar e deixar cozinhar lentamente, se necessário acrescentar um pouco de água. O tempo de cozedura do coelho bravo não é certo depende da carne, há umas mais tenras e outras mais rijas, a única forma de ver é ir espetando um garfo. Quando o coelho estiver quase cozido acrescentar o molho da marinada coado e deixar levantar fervura mais 10 minutos a 15 minutos. Se gostar pode engrossar o molho com um pouco de farinha, mas eu não o fiz. Servir sobre fatias de pão frito ou torrado.
Toda a gente que me conhece um pouco sabe que eu não gosto de comidas misturadas, jardineiras, massadas e arrozes. Não gosto de arroz de carne, detesto cabidelas e não é pelo sangue é mesmo por estar tudo misturado e também não gosto de arroz de coelho, que a minha avó fazia vezes sem conta para deleite da maioria da família sendo eu a excepção. Na família do meu marido também todos gostam de cabidelas, arrozes e afins, continuando eu a ser a ovelha negra...
Mas hoje fiz arroz de coelho para o jantar, e comi... e não foi porque eu quisesse fazê-lo, proporcionou-se pela falta de tempo que é uma coisa lixada.
De manhã ao sair de casa temperei o coelho para assar no forno, ou pelo menos essa era a minha intenção, acontece que a minha mãe foi hospitalizada para uma pequena cirurgia, que correu bem felizmente, e eu fui vê-la ao hospital depois de sair do trabalho.
Cheguei a casa tarde e o coelho em vez de ir para o forno foi para o tacho, mais precisamente para a panela de pressão para ser mais rápido, tentei pensar num acompanhamento, mas nada me ocorria, entretanto ao abrir a panela para rectificar a cozedura do bicho deparei-me com uma enorme "sopa" de caldo, culpa minha é claro, que, por desatenção ou por pressa, acrescentei demasiada água na panela que sendo de pressão ainda acrescentou mais alguma do vapor.
Naquele momento pensei que não havia nada a fazer e o melhor era fazer um arroz naquele caldo, passando da ideia à acção de imediato que eram 10h da noite e a fome já se fazia sentir.
O meu marido entretanto pergunta-me o que é o jantar e antes de eu responder olhou para dentro da panela e com o ar mais infeliz do mundo e de voz quase sumida diz-me: Tu não sabes que eu não gosto de arroz de coelho?
Ops! ... ... Fez-se silêncio! Não me ocorreu, disse-lhe, mas agora é o que temos e como eu também não gosto de arroz de coelho, comemos e pronto! Se isto fosse no tempo da minha bisavó tenho a certeza que a coisa ficaria feia, se é que me entendem...
Foi assim que os dois nos sentamos à mesa, no mais profundo dos silêncios e com o ar mais infeliz do mundo.
À primeira garfada o semblante mudou, à segunda o ar era de satisfação e no final não sobrou um grão de arroz.
Mas cá entre nós que ninguém nos ouve não contem isto a ninguém, para todos os efeitos e perante toda a família: Nós não gostamos de arroz de coelho.
Esta foi uma excepção que conto repetir num destes dias, e na nossa opinião estava perfeito. (shiuuuuu! É segredo!)
Mas para que fique bem claro e não restem dúvidas eu continuo a não gostar de comida misturada e se alguém disser o contrário, mesmo que apresente provas, eu faço como os políticos e nego tudo.
Arroz de Coelho
Ingredientes:
Preparação:
Temperar o coelho com o sal, o louro, o alho, o tomilho, o colorau, o vinho branco e uma colher de sopa de azeite, deixar assim um bom par de horas.
Na panela de pressão colocar 2 colheres de sopa de azeite e alourar o coelho por todos os lados, adicionar a cebola cortada em gomos finos, mexer e juntar o líquido da marinada coado. Nesta altura devo ter junto cerca de um copo de água. Fechar a panela e deixar cozer por cerca de 15 a 20 minutos.
Deixar sair o vapor antes de abrir a panela, nunca é demais lembrar que enquanto se ouvir barulho do vapor a sair da panela não se pode abrir para não correr o risco de uma queimadura grave.
Retirar o coelho para um prato e reservar, acrescentar os cogumelos, o arroz e 2 copos de água ou um pouquinho mais para o arroz cozer e ficar ligeiramente caldoso, rectificar o sal e assim que o arroz estiver cozido servir de imediato para não empapar.
Notas: Usei uma mistura de cogumelos congelados marca continente, muito bons por sinal. O arroz é da região de Alcácer do Sal, marca Ceifeira, usei agulha extra longo, experimentem porque é um arroz excepcional, quer o agulha quer o carolino.
A minha colega B. foi a Trás-os-Montes e trouxe-me flor de carqueja, e eu para além de beber o chá utilizei-o para cozinhar, o resultado foi surpreendente.
A carqueja é um pequeno arbusto aromático, com flores amarelo torrado e cujas folhas têm propriedades medicinais, em Portugal cresce espontaneamente em terrenos secos.
A carqueja também é largamente conhecida na América Latina, nomeadamente no Brasil e no Perú.
Coelho com Chá de Flor de Carqueja
Ingredientes:
Preparação:
Aloure o coelho num fio de azeite, adicione a cebola bem picada, a folha de louro e o chá de flor de carqueja, tempere com o sal aromatixado e o piri-piri e deixe cozinhar até a carne ficar macia, se necessário adicione um pouco de água ou mais chá.
Se usar a panela de pressão são cerca de 20 minutos.
Sirva acompanhado de espinafres salteados em azeite e alho e arroz ou puré de batata.
Hoje resolvi viajar de novo no tempo e regressar de novo à era medieval para fazer mais uma receita completamente diferente do que estamos habituados.
Segui a receita quase à risca, à excepção do primeiro passo que por o ter acho estranho improvisei, de qualquer das formas aqui não estou obrigada a nenhum rigor histórico.
A pesquisa que fiz há bastante tempo atrás deu-me um enorme prazer e uma quantidade de receitas que sempre que o tempo me permitir serão testadas e postas por aqui.
A origem desta receita remonta à Inglaterra do séc. XIV, é relativamente simples, mas de sabor exótico, a receita original e a tradução para inglês dos nossos tempos está aqui. Mas, para aqueles que só agora visitam o Tertúlia de Sabores, podem sempre espreitar em gastronomia medieval as outras receitas que testei faz um tempo.
Aqui fica a minha versão ligeiramente modernizada de mais uma iguaria medieval, posso dizer que fica muito bom, principalmente para quem gosta de sabores agri-doces.
Coelho em Molho de Vinho Doce e Passas de Uva
(Connynges in Cyrip)
Ingredientes:
Preparação:
A receita manda cozer o coelho em caldo de carne, eu abdiquei dessa parte e alourei-o num fio de azeite, adicionei todos os restantes ingredientes e deixei cozinhar tapado em lume muito brando durante uns 40 minutos, virando o coelho de vez em quando para todo ele tomar sabor, se o molho evaporar rápidamente e o coelho ainda não estiver cozido adicione uns borrifos de água.
Acompanhei com arroz branco, e legumes cozidos. Se quiser, apesar de não ser de todo medieval, também deve acompanhar bem com um puré de batata ou umas batatinhas fritas.
Nota: Como já disse anteriormente quando abordei este assunto , nenhuma das receitas medievais têm quantidades, por isso é necessária alguma imaginação para que os sabores fiquem equilibrados. As quantidades desta e das outras receitas foram calculadas por mim e não quer dizer que sejam as certas.




World Bread Day